"Oh! Quão bom e quão suave é que os Irmãos vivam em união.
É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desceu sobre a barba,
É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desceu sobre a barba,
a barba de Aarão, que desceu sobre a gola de suas vestes.
Como o orvalho do Hermon que desce sobre os montes de Sião,
Como o orvalho do Hermon que desce sobre os montes de Sião,
porque ali o Senhor ordena a bênção, a vida para sempre."
INTERPRETAÇÃO
No Grau de Aprendiz, o texto selecionado encerra significado muito especial, manifestado no ensinamento simbólico e filosófico da fraternidade: “Excelência do Amor Fraternal”. Para melhor compreensão, tentaremos interpretá-lo dividindo-o em três partes:
1ª PARTE: “OH! QUÃO BOM E QUÃO SUAVE É QUE OS IRMÃOS VIVAM EM UNIÃO”.
Para o hebreu de outrora, a palavra “Irmão” apresentava significado bem definido. Jerusalém não era apenas a capital entidade civil, mas também uma entidade espiritual. Em certas ocasiões, práticas religiosas eram celebradas no Templo de Salomão. Era um período muito feliz, pois todos os judeus reconheciam a sua comum irmandade e “habitavam em união” por diversos dias, na Cidade Sagrada, para onde todos convergiam.
Mais do qualquer outro povo, os judeus davam importância à unidade da família. Os filhos nunca deixavam a tenda do pai, mesmo na época em que viviam como nômades, no sistema patriarcal. Quando um rapaz casava, outra tenda era levantada. Somente as moças deixavam o lar, pois tinham que se mudar para a tenda dos seus maridos. Era o ideal da família, que os “irmãos sempre vivessem em união”.
Essa unidade que os caracterizava foi quebrada pelo exílio babilônico. Os judeus, então, estabeleceram-se em cidades, aprenderam vários ofícios, prosperaram materialmente, e por fim se espalharam para os centros mercantis do velho mundo. A típica coesão familiar foi partida.
Mais tarde, com a permissão do retorno à Jerusalém, reconstruiu-se o Templo e o versículo parece um toque de reunir: uma chamada para relembrar os bons dias, quando todos habitavam em paz e felicidade na terra natal. Assim como os irmãos de sangue sentiam a necessidade de unir-se em torno do templo familiar, depreende-se que a filosofia maçônica tomou como exemplo essa salutar experiência, para doutrinar os adeptos a estarem sempre juntos como única família, constituindo seu Templo Espiritual.
Nos dias atuais, quando são lidos os versículos sempre da mesma forma, no mesmo momento do ritual de abertura da Loja e são considerados os trabalhos com plena força e vigor, esse texto atua em todos os presentes ao ato, como unificador das mentes em torno do grande objetivo comum, pois que nesse momento constitui-se uma obra de criação, à Glória do Grande Arquiteto do Universo. Finalmente, a interjeição “oh” designativa de admiração, surpresa, bem diz do espírito do texto ao relatar a “Excelência do Amor Fraternal”, isto é, o grau máximo da bondade e de perfeição causado pelo encontro dos que se amam.
2ª PARTE: "É COMO O ÓLEO PRECIOSO SOBRE A CABEÇA, QUE DESCEU SOBRE A BARBA, A BARBA DE AARÃO, QUE DESCEU SOBRE A GOLA DE SUAS VESTES".
Os egípcios naquela época usavam a cabeça raspada; pelo contrário era marca de distinção entre os judeus, o cabelo e a barba compridos. A barba era um sinal de veneração e virilidade. Se um judeu recebesse um convidado para cear, ele lhe dava as boas vindas derramando-lhe óleo sobre a cabeça. O texto é claro e diz: “sobre a cabeça e a barba, até a gola de suas vestes”; portanto, o óleo tinha que ser em abundância para fazer o efeito. Se alguém era realmente bem-vindo, o óleo havia de correr livremente da cabeça aos pés, passando pela barba, pescoço até o vestuário.
Tinha que ser bastante óleo para que o seu perfume enchesse a sala de refeições, dando ao ambiente um odor refrescante, da mesma maneira que queremos boa vontade e companheirismo dominando as nossas reuniões, enchendo a atmosfera com um doce sabor de fraternal regozijo. A hospitalidade da reunião deve gerar um sentimento de ardor, vivacidade e prazer entre todos os que estão reunidos. Tudo dever contribuir para as palavras do bom homem da casa. Entre irmãos estamos realmente contentes.
Nos dias atuais, sentimos alegria ao recebermos a visita de Irmãos de Lojas co-irmãs, que conosco vêm se juntar para a realização dos trabalhos e podemos dizer que essa satisfação esparge e infunde, igualmente, um perfume espiritual que transcende à nossa própria individualidade, posto que a união de todos passa a constituir o somatório da força geradora da grandiosa obra a que todos se propõem.
Era um acontecimento comum ao lar de cada família, o uso livre do azeite de oliva; era tão comum que foi usado como meio de câmbio antes da adoção de cunhagem de moedas. Era também o azeite de grande valia por suas qualidades medicinais. A referência a Aarão foi correta, posto que ele foi ungido como Alto Sacerdote para Moisés, antes do povo escolhido ter deixado o Egito em direção à terra da promissão. Ele foi reconhecido líder espiritual durante a fuga do cativeiro e a marcha errante pelo deserto, anteriormente à chegada em Canaã, a terra da abundância, onde corria leite e mel.
Comparando essa unidade fraternal da família, aparece o óleo como ingrediente altamente significativo, pois ele possuía um valor extraordinário sobre todos os aspectos. Era o símbolo da unidade e do amor. Ungir da cabeça aos pés com óleo era sinal de grande respeito e amor entre os judeus. Em Lucas, Capítulo 7, Versículo 38, confirma-se: “E, estando de trás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhes com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhes os pés, e ungia-lhes com ungüento”. Em Levítico, Capítulo 8, Versículo 10, também se vê a valia do óleo: “Então Moisés tomou o azeite da unção e ungiu todo o tabernáculo, e tudo o que nele havia e o santificou”. Em Êxodo, Capítulo 28, Versículo 2, fica reforçada a idéia do Salmista: “Deus escolhe Aarão e seus filhos para Sacerdotes. Ainda em Êxodo, Capítulo 30, Versículo 30: “Também ungirás a Aarão e seus filhos e os santificarás para me administrarem o sacerdócio”; e no 31, “E falarás aos filhos de Israel, dizendo: Este me será o azeite da santa unção nas vossas gerações”.
3ª PARTE: "COMO O ORVALHO DE HERMON QUE DESCE SOBRE OS MONTES DE SIÃO, PORQUE ALI O SENHOR ORDENOU A BENÇÃO, A VIDA PARA SEMPRE".
Esta ilustração nos leva da vida, ou do lado humano da palestina, para uma consideração do aspecto geográfico, ou dos aspectos naturais. O Monte de Hermon está localizado ao longo da fronteira norte do País. Possui cerca de 3000 metros de altitude; seu nome quer dizer: “o que pode ser visto de longe”. Mesmo durante o calor do verão, quando o restante da região está ardendo, em virtude do vento quente denominado siroco, o manto de neve da montanha é claramente visível a muitas milhas de distância. A terra pode estar torrada e seca, mas a neve, “o orvalho do Hermon” permanece brilhante e alvo.
O sistema do rio Jordão é alimentado por esse orvalho que se derrete, tem suas principais nascentes ao sopé do Monte Hermon. É uma bênção para a nação, pois que o rio corre, com abundante suprimento de carvão, fornecendo uma excelente base para a indústria. O solo é alimentado por essa água, fornecendo azeitonas, uvas e outras frutas. O Jordão, por fim, entra no Mar da Galiléia e torna possível uma abundante indústria pesqueira, colaborando tanto para a produção de alimentos para a população como para exportação.
Esse local era o ideal à construção do Templo, sendo, antes, o Palácio de Davi que com a construção das muralhas, tornou-se uma fortaleza inexpugnável. Parte de sua potência era em virtude da natureza da rocha, que constituía o promontório. A água foi encanada por baixo da terra através de Jerusalém, em condutos. O “orvalho de Hermon” é físico, exterior e visível a olho nu, o que desce da montanha de Sião é escondido, interno, brotando em fontes por debaixo do solo. O primeiro é simbólico, terreno; ou outro é espiritual, eterno. O homem apresenta os aspectos material, temporal, ao lado da manifestação invisível, espiritual. Assim, “o orvalho de Hermon” foi de grande valor para a existência da Palestina. Os “Montes de Sião” eram um lugar sagrado, o local do Templo, a Casa do Senhor, onde se ordena “a bênção e vida para sempre”. Ora, “vida para sempre” induz-nos pensar na imortalidade da alma.
A irmandade, ou a fraternidade, é uma graça interna e algo que brota de dentro do coração. Seus frutos são facilmente vistos, assim como facilmente vista é a cevada, o trigo, as uvas, os figos, que crescem resultantes da neve derretida do Monte Hermon. Essas frutas são paz, harmonia, amor, não obstante, nenhuma delas emanarem do exterior como as provenientes da humanidade que enriquece o vale do Jordão e por fim enche o Mar da Galiléia. Esta é física, mas não é eterna. Assim, a irmandade, como o orvalho dos Montes do Sião, brota de dentro, move-se da natureza interna para fora. É mais duradoura, do que aquilo que é meramente físico.
Muitas vezes, ficamos impressionados com o que é visto, o físico, o tangível, mas o que não é visto, o espiritual, o intangível nem damos importância. Estamos tão inclinados a viver enredados com as coisas transitórias do mundo, que esquecemos que o que é material é transitório. A bênção que todos deveremos procurar, é fruto da união fraternal, é a dádiva espiritual, é a vida eterna.
É fácil compreender-se a razão porque foi escolhido este Salmo para representar nossa união, quando da abertura dos trabalhos no grau de aprendiz e para ilustrar o encerramento, transcrevemos o “Canto Dei Fratelli”:
“Guarda como é bello e piacevole
che i fratelli vivano insieme.
É come profuno d’olio prezioso
versato sul capo di Aronne,
che scorre sulla barba
fino sul collo del manto.
É come uma fresca rugiada
che scende sul monte Sion
abbondate come sull’ Ermon.
In Sion, il Signore manda
la sua benedizione:
la vita per sempre! "
Esta Peça de Arquitetura foi elaborada em 22.04.1964, em companhia do saudoso Respeitável Irmão Samuel Herbert Jones, P. M., e hoje, depois de ampliada e revisada, reeditamos em sua homenagem). Do livro “UMA LOJA SIMBÓLICA”, Irmão Walnyr Goulart Jacows, Or.: de Porto Alegre.
